O Credo Apostólico
Salvação
Lição 6
Manuscrito
© 2012 by Third Millennium Ministries
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida de nenhuma forma ou por nenhum meio com fins lucrativos, exceto em breves citações para fins de revisão, comentário ou bolsa de estudos, sem a permissão por escrito da editora, Third Millennium Ministries, Inc., 316 Live Oaks Blvd., Casselberry, Flórida 32707.
Salvo indicação em contrário, todas as citações das Escrituras são retiradas da Bíblia Almeida Atualizada (ARA), da Sociedade Bíblica do Brasil.
Sobre o Thirdmill
Fundada em 1997, o Thirdmill é um ministério cristão evangélico sem fins lucrativos dedicado a fornecer:
Educação bíblica. Para o mundo. De graça
Nosso objetivo é oferecer educação cristã gratuita a centenas de milhares de pastores e líderes cristãos em todo o mundo que não têm treinamento suficiente para o ministério. Estamos atingindo essa meta produzindo e distribuindo globalmente um currículo de seminário multimídia inigualável em inglês, árabe, mandarim, russo e espanhol. Nosso currículo também está sendo traduzido para mais de uma dúzia de outros idiomas por meio de nossos ministérios parceiros. O currículo consiste em vídeos com gráficos, instruções impressas e recursos da Internet. Ele foi projetado para ser usado por escolas, grupos e indivíduos, tanto on-line quanto em comunidades de aprendizagem.
Ao longo dos anos, desenvolvemos um método altamente econômico de produzir lições multimídia premiadas com o melhor conteúdo e qualidade. Nossos escritores e editores são educadores treinados em teologia, nossos tradutores são falantes nativos de seus idiomas de destino, e nossas lições contêm as percepções de centenas de respeitados professores de seminários e pastores de todo o mundo. Além disso, nossos designers gráficos, ilustradores e produtores seguem os mais altos padrões de produção, utilizando equipamentos e técnicas de última geração.
Para atingir nossas metas de distribuição, o Thirdmill estabeleceu parcerias estratégicas com igrejas, seminários, escolas bíblicas, missionários, emissoras cristãs e provedores de televisão via satélite e outras organizações. Esses relacionamentos já resultaram na distribuição de inúmeras lições em vídeo para líderes indígenas, pastores e estudantes de seminários. Nossos sites também servem como meios de distribuição e fornecem materiais adicionais para complementar nossas lições, inclusive materiais sobre como iniciar sua própria comunidade de aprendizado.
O Thirdmill é reconhecido pelo IRS como uma corporação 501(c)(3). Dependemos das contribuições generosas e dedutíveis de impostos de igrejas, fundações, empresas e indivíduos. Para obter mais informações sobre nosso ministério e saber como você pode participar, visite www.thirdmill.org
Conteúdo
INTRODUção 1
PERDÃO 1
O Problema do pecado 2
Definição de pecado 2
A origem do pecado 4
Conseqüências do pecado 5
Graça Divina 6
Pai 7
Filho 8
Espírito Santo 8
Responsabilidade Individual 9
Condições 9
Meios 12
RESURREIÇÃO 16
Maldição 16
Evangelho 17
Velho Testamento 18
Novo Testamento 20
Ressurreição de Jesus 22
Redenção 23
Vida Presente 23
Estado Intermediário 23
Nova vida 25
VIDA ETERNA 26
Tempo 26
Qualidade 28
LUGAR 30
CONCLUSÃO 32
INTRODUção
Através dessas lições, temos mencionado que o Credo Apostólico começou como um breve resumo das crenças que os primeiros cristãos confessavam quando eram batizados. Nesse contexto, é fácil imaginar que a parte mais emocional de sua confissão, para muitos, seriam os artigos do Credo que expressavam sua fé em sua salvação pessoal.
E, isso não é verdade para nós também? Nós amamos a nosso grande Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. E valorizamos a igreja que Ele edificou. Mas nosso grande gozo são as boas novas de que a salvação é para nós. Regozijamo-nos na segurança de que Deus nos ama, tanto agora como no mundo vindouro.
Esta é a sexta lição em nossa série do Credo Apostólico. Temo-la intitulado “Salvação”. Nessa lição observaremos os artigos de fé no Credo Apostólico que afirmam a crença nas boas novas de perdão e de vida eterna.
Na Escritura, a palavra “salvação” é usada de diversas maneiras, indicando que há muitas facetas para nossa salvação em Cristo. Quando os cristãos modernos usam a palavra “salvação” geralmente temos em mente a recepção das bênçãos que Cristo comprou por sua morte expiatória, começando com ser nascido de novo e reconciliado com Deus, continuando através da vida no processo da santificação e culminando com nossa glorificação final nos novos céus e nova terra. O Credo Apostólico fala do aspecto da salvação com estas palavras:
Creio...
Na remissão dos pecados,
Na ressurreição da carne,
Na vida eterna.
Essas três idéias – perdão, ressurreição e vida eterna – não esgotam a descrição bíblica de nossa salvação. Mas são declarações primárias no Credo Apostólico do que Deus faz quando salva crentes individualmente.
Nossa discussão da salvação no Credo Apostólico mencionará cada uma destas dimensões de nossa salvação. Primeiro, falaremos acerca da remissão dos pecados. Segundo, exploraremos a doutrina da ressurreição do corpo. E terceiro, consideraremos a natureza da vida eterna. Vamos começar com a questão familiar do perdão dos pecados.
Para entender o que o Credo Apostólico quer dizer com remissão, mencionaremos três coisas relacionadas: primeiro, o problema do pecado que torna a remissão necessária; segundo, a graça divina que torna o perdão possível; e terceiro, nossa responsabilidade individual, as coisas que precisamos fazer para receber o perdão. Observaremos primeiramente o problema do pecado.
O Problema do pecado
Os cristãos que crêem na Bíblia reconhecem que uma das razões principais pela qual Cristo morreu foi para resolver o problema criado pelo nosso pecado. O pecado nos separa das bênçãos de Deus, e nos coloca debaixo de maldição. E não há maneira pela qual nós possamos vencer este problema por nós mesmos. O pecado nos condena. E, à parte de Cristo, não temos forma de salvar a nós mesmos de sua presença e de suas conseqüências.
Investigaremos o que a Escritura ensina acerca do problema do pecado em três partes. Primeiro, ofereceremos uma definição bíblica do pecado. Segundo, falaremos acerca da origem do pecado na raça humana. E terceiro, observaremos as conseqüências do pecado. Comecemos com a definição do pecado.
Definição de pecado
A Bíblia fala acerca do pecado de variadas formas. Usa palavras como infração, rebelião, transgressão, ofensa, maldade, errar o alvo e uma variedade de outra palavras para descrever as coisas que são pecaminosas. E cada uma destas palavras agrega algo a nosso entendimento do pecado.
Mas, quando as Escrituras falam do pecado abstratamente – quando oferece sua definição do pecado – uma palavra tende a se destacar das outras: infração. No vocabulário bíblico, o pecado é fundamentalmente uma violação à lei de Deus. Tal como escreveu o apóstolo João em 1 João 3.4:
Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.
Observamos essa ênfase do pecado como uma infração em lugares como Romanos 7.9-25, e 1 Coríntios 15.56. Este conceito básico do pecado também é refletido na teologia de muitas tradições cristãs diferentes. Para citar um exemplo, vejamos a pergunta e resposta número 14 do Breve Catecismo de Westminster, respondendo à seguinte pergunta:
O que é o pecado?
O catecismo responde:
Pecado é a falta de conformidade com a lei de Deus ou a transgressão dela.
Notemos que esta resposta identifica dois tipos gerais de violação à lei de Deus: falta de conformidade com a lei e transgressão da lei.
Por um lado, falta de conformidade com a lei é a falha em fazer o que a Escritura ordena. Isto muitas vezes é chamado de pecado de omissão porque omitimos ou negligenciamos o que deveríamos fazer. Por outro lado, transgressão da lei é fazer o que a Escritura proíbe. Este tipo de quebra é muitas vezes chamado de pecado de comissão porque nós ativamente cometemos o pecado ao pensar, sentir ou fazer algo que a Escritura proíbe.
Então, quando falamos da lei de Deus como o padrão que define o pecado, é importante mencionar que a lei de Deus não é arbitrária ou casual. Pelo contrário, a lei é o reflexo do caráter perfeito de Deus. Vejamos a forma como Paulo descreveu a lei em Romanos 7.12:
De fato a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.
Como disse Paulo, os mandamentos de Deus são santos, justos e bons, tal como Deus é em si mesmo. Os mandamentos de Deus sempre estão de acordo com sua natureza.
Essa é a razão porque a Escritura ensina que se amarmos a Deus, guardaremos os seus mandamentos. Se amarmos a Deus, nós também amaremos aquelas coisas que refletem o seu caráter, tal como a lei. Observamos isto em Deuteronômio 5.10; 6.5-6, Mateus 22.37-40, João 14.15-24 e muitas outras passagens. Vejamos o que João escreveu em 1 João 5.3:
Porque nisto consiste o amor a Deus: obedecer aos seus mandamentos.
O amor de Deus é manifestado em obediência à sua lei. Então, quando quebramos sua lei, não estamos agindo em amor a Deus. E portanto, estamos pecando.
Existe na Bíblia uma conexão próxima entre amar a Deus e obedecer a Deus. Creio que a primeira coisa que temos que esclarecer é que amar a Deus não é meramente o cumprimento do mandamento de amar a Deus. Pode haver uma orientação para o dever, uma obrigação penosa, que nunca esteve presente quando a Bíblia diz “Se vocês me amam”, ou quando Cristo disse: “aquele que me ama, guarda os meus mandamentos”. Mas, se o amor está ali, se é uma auto-entrega enraizada no deleite de Deus, então a manifestação mais natural e válida dessa vontade será uma profunda, disposta e pronta obediência porque está enraizada em um desejo de agradar o Deus a quem amamos e em quem nos deleitamos; está enraizada na confiança de que Seus caminhos são confiáveis e para nosso bem assim como Seu próprio caráter.
- Dr. Glen Scorgie
Quando falamos em atuar com base em nosso amor a Deus, pecamos ao nos rebelar contra Ele, ao transgredir sua lei, ao fazer o mal, ao errar o alvo, ofendendo seu santo, justo e bom caráter. Mas, quando nosso amor a Deus nos motiva, pomos seus interesses e demandas acima dos nossos. E como resultado, podemos evitar muitos pecados e suas terríveis conseqüências para nossas vidas.
A origem do pecado
Muitos de nós estamos familiarizados com os eventos registrados em Gênesis 3, a história de quando nossos primeiros pais Adão e Eva se rebelaram contra Deus ao comer do fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. Do ponto de vista bíblico, este fato não foi um evento isolado. Ele fez com que a humanidade inteira se tornasse culpada do pecado, e fosse corrompida pelo pecado. Os teólogos comumente se referem a esse evento como a queda da humanidade em pecado, ou simplesmente a Queda.
Genesis 1.26-31 menciona que quando Deus criou a humanidade, nós éramos muito bons. Neste caso, a palavra “bom” significa que nós éramos precisamente o que Deus queria que fôssemos. Nossos primeiros pais foram moralmente, puras imagens de Deus, perfeitamente adequados para servi-lo e governar sobre o mundo que Deus havia criado.
Como Paulo indicou em Romanos 5.12, o pecado não havia entrado na humanidade antes da queda. Nós nunca havíamos cometido pecado, não estávamos inclinados para o pecado, não éramos corrompidos pelo pecado, e não estávamos habitados pelo pecado.
Mas, mesmo antes de pecarmos, nós tínhamos tanto a habilidade quanto a oportunidade para pecar. Quando Deus criou Adão e Eva e os colocou no Jardim do Éden, ele lhes revelou muitas coisas. Mas um mandamento rapidamente veio para o primeiro plano como um teste de sua disposição de servir a Deus. Em Genesis 2.16-17, lemos que Deus permitiu a Adão e Eva comer de qualquer arvore do jardim exceto da árvore do conhecimento do bem e do mal. E a possibilidade de quebrar essa lei apresentou uma oportunidade para Adão e Eva pecarem.
Tragicamente, como sabemos de Gênesis 3.1-6, a serpente enganou Eva e ela comeu do fruto proibido. Então Eva ofereceu algo do fruto a Adão, e ele comeu também. Adão e Eva violaram a lei justa de Deus e voluntariamente escolheram pecar. Apocalipse 12.9 indica que a serpente era Satanás, e 1 Timóteo 2.14 indica que Eva foi enganada. Mas, nem a tentação de Satanás nem a loucura de Eva justificaram o pecado de nossos primeiro pais. Ambos foram responsabilizados em escolher o mal ao invés do bem.
Nestes eventos observamos, mais uma vez, que o pecado é fundamentalmente uma questão de violar a lei de Deus, sua vontade revelada. Quando nós pensamos, falamos ou atuamos de modo diferente da lei revelada de Deus, estamos escolhendo o mal ao invés do bem. E, mesmo se nós formos enganados no pecar, Deus continua nos mantendo responsáveis por aquilo que fizemos. Esta é a razão pela qual é de muita ajuda guardar a Palavra de Deus em nossos corações – não só para que a conheçamos, mas também para que a amemos. Quando conhecemos a lei de Deus, isso nos ajuda reconhecer o pecado para que não sejamos enganados. E quando amamos a lei de Deus, se torna mais fácil obedecê-la.
Havendo considerado a definição e a origem do pecado, estamos prontos para observar as conseqüências do pecado.
Conseqüências do pecado
A Escritura indica que depois que Adão e Eva pecaram, Deus julgou e amaldiçoou a toda a raça humana. Esta maldição afetou cada aspecto de nosso ser. Resultou imediatamente na morte espiritual da qual se fala através de toda a Escritura, como em João 5.24-25; Efésios 2.1-5 e Colossenses 2.13-14. Isso também produz corrupção em nosso ser, tanto no corpo como na alma, como o vemos em Jeremias 17.9 e Romanos 7.18-8.11. E, por fim, nos conduz à morte física, como lemos em Gênesis 3.19 e Romanos 5.12. Finalmente, o pecado trouxe à humanidade eterno sofrimento sob o juízo de Deus no inferno, como aprendemos de passagens como Mateus 5.29-30.
O bem conhecido pastor Charles Spurgeon, que viveu dos anos 1834 a 1892, falou da maldição de Deus para Adão e Eva em seu sermão A Maldição Removida. Vejamos o que ele diz:
O que essa maldição inclui? Envolve morte, a morte deste corpo... inclui a morte espiritual, uma morte da vida interior que Adão possuía – a vida do espírito que agora fugiu, e que só pode ser restaurada pelo Espírito... E, por último e pior de tudo, inclui a morte eterna. Tudo o que se pode reunir nessa terrível, horrível... palavra “inferno”.
O que é pior, as conseqüências do pecado de Adão e Eva se propagaram a toda a ração humana – a todos os que descendem deles através da geração natural. Observamos a extensão universal do pecado em passagens como 1 Reis 8.46, Romanos 3.9-12, Gálatas 3.22, e Efésios 2.3. Vejamos a forma como Paulo falou acerca do pecado de Adão em Romanos 5.12-19:
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram... Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.
Como vimos em uma lição anterior, Adão era o representante do pacto de toda a raça humana. E Paulo ensinou que devido a isto, o pecado de Adão foi creditado a todos os seus descendentes. E como resultado, somos pecadores por natureza. Vimos a este mundo espiritualmente mortos, sujeitos à dor e privações, e destinados à morte física.
Isso é difícil de ser exagerado; isso é até mesmo impossível para nós entender a completa conseqüência do pecado. Mas o nosso pecado é uma rebelião contra o Criador. Ele é um esforço para roubar-lhe de sua glória; é quebrar a lei; é está aquém da sua glória. Ele é em todo sentido situar a nós mesmos como inimigos de Deus. O pecado interrompe nossa relação com Deus porque Deus é santo. Ele não pode ver o pecado. Como conseqüência de sua santidade, Ele deve derramar sua ira sobre o pecado. Assim, quando vemos a pecaminosidade humana, isso é tudo o que precisamos saber sobre nosso problema. Isso é tudo que precisamos saber sobre nós mesmos. O pecado é a psicologia de seis letras que nos ajuda a entender o que vemos no espelho e que sabemos o que é. Também nos lembra que não há forma de resgatarmos a nós mesmos dessa situação difícil. Só Deus pode fazê-lo, e o fez em Cristo.
- Dr. R. Albert Moehler, Jr.
O problema do pecado é realmente terrível. Toda a humanidade está absolutamente perdida e condenada. Não temos modo de redimirmos a nós mesmos. Estamos perpetuamente condenados a sofrer sob o juízo de Deus. Não há forma de ganharmos favor de Deus de volta, ou fazer compensações pelos nossos pecados. À parte do perdão misericordioso de Deus, absolutamente não há esperança de salvação.
Havendo observado o problema do pecado, devemos concentrar nossa discussão sobre o perdão dos pecados em relação à graça que torna possível o perdão.
Graça Divina
Em sua misericórdia, Deus não esteve disposto a deixar que toda a raça humana permanecesse debaixo da maldição do pecado. Ele seguia com o plano de que a humanidade deveria encher e governar a terra, e que a convertera em um reino digno de sua presença. Assim, ele enviou um redentor para solucionar o problema do pecado. E esse Redentor foi seu Filho, Jesus Cristo.
Como Redentor, Jesus nos salva de nossa culpa e corrupção; ele nos reconcilia consigo mesmo; ele restaura nossa habilidade para tornar o mundo em seu reino terreno. O plano de Deus não depende da habilidade de simples seres humanos em merecer sua própria salvação. Ele depende da graça de Deus, seu favor imerecido, que nos é garantido através de seu representante especial: o Senhor Jesus Cristo. Podemos ler isso em Romanos 3.23-24:
Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.
Como obra da graça divina, o perdão envolve as três pessoas da Trindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo. E começou com o Pai.
Pai
A salvação é trinitária no âmago: o Pai é o que a inicia, o Filho o que a leva a efeito, o Espírito o que a aplica. Quando pensamos na relação Pai-Filho deveríamos pensar que – quando pensamos no Pai, Filho e Espírito Santo, as três pessoas da Trindade estão envolvidas no planejamento da nossa salvação. Todas as pessoas estão agindo em graça, amor e misericórdia bem como mantendo sua ira, justiça e juízo. Então quando o Pai é visto como o iniciador, Ele não está agindo independentemente do Filho e do Espírito Santo.
- Dr. Stephen Wellum
O perdão começou com o Pai porque Ele é o que o planejou. O Novo Testamento explicitamente ensina que o Pai enviou o Filho ao mundo e o designou como o Redentor. Observamos isto em João 3.16-18, Atos 2.34-36 e Hebreus 3.1-2.
O Novo Testamento também ensina que o Pai autorizou Jesus dando-lhe poder como Redentor de seu povo, e prometeu aceitar o sacrifício de Jesus na cruz como o pagamento pelo pecado. Nós lemos sobre o papel do pai em passagens como João 10.14-18, Colossenses 1.18-20 e Hebreus 2.10. De fato, Romanos 3.25 diz que foi o Pai que ofereceu Jesus como sacrifício. Vejamos o que Paulo escreveu ali:
Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação...
O Pai é o grande arquiteto da redenção. Esse é seu plano gracioso e misericordioso desejo de perdoar nossos pecados e nos abençoar. E é sua autoridade que faz a salvação tanto possível como certa.
A ideia de que na cruz Jesus está tentando afastar a ira de seu Pai celestial contra seu povo, de tal maneira que Jesus está amando e que o Pai não está, é, na realidade, uma interpretação errônea do que está acontecendo na obra expiatória de Jesus Cristo. A obra de Cristo na cruz é, na realidade, a expressão do amor que primeiro o Pai teve para com o Seu povo. Pensemos quão freqüentemente é ressaltado no Novo Testamento que a vinda de Jesus a este mundo e o fato de ele suportar a cruz é, de fato, o resultado do amor do Pai. O versículo que a maioria de nós, talvez tenha memorizado ao começar nossas vidas cristãs, é João 3.16 que enfatiza: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito... Que amor está sendo enfatizado nesse versículo? Não quero dizer de maneira nenhuma que deixemos de lado o amor de Jesus, mas é o amor do Pai Celestial ao dar Seu Filho, o que está sendo enfatizado nessa passagem.
- Dr. J. Ligon Duncan III
A graça divina que nos traz o perdão também envolve ao Filho, que é o nosso Redentor.
Filho
Em cumprimento à promessa do Pai, o Filho foi enviado ao mundo, encarnando-se como Jesus, o tão esperado Messias, para expiar o nosso pecado. Encontramos esse ensino em muitos lugares, tais como Romanos 3.25-26, Hebreus 2.14-17 e 10.5-10.
Jesus expiou o nosso pecado ao morrer na cruz em lugar dos pecadores. Ele recebeu a maldição divina que havia sido enviada pelo nosso pecado. E sua perfeita justiça foi creditada a nosso favor, para que pudéssemos ser contados não como pecadores, mas como obedientes filhos de Deus. Para citar algumas passagens nas quais este tema aparece, vejamos João 10.14-18, Gálatas 2.20; 2 Coríntios 5.21 e Hebreus 10.9-14. Paulo escreveu em Efésios 1.7:
Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus.
Nossos pecador são perdoados não porque Deus o ignora, mas porque Ele os castigou em Cristo. E isso é a razão pela qual a Escritura nos encoraja a ter tal confiança em nossa salvação.
Além de depender dessas obras do Pai e do Filho, o perdão também é o resultado da graça divina do Espírito Santo.
Espírito Santo
O Espírito santo é a pessoa da Trindade que aplica o perdão a nossas vidas. O Pai preparou o plano e o Filho realizou a expiação. Mas nossos pecado não são perdoados até que o Espírito Santo faça sua obra.
Quando primeiramente vimos à fé, o Espírito Santo nos reconcilia com Deus perdoando todos os pecados que temos cometido até esse ponto. Ele também nos dá uma nova vida espiritual ao regenerar nossos espíritos, tal como Jesus mencionou em João 3.5-8. Atos 11.18 fala acerca desta experiência como “arrependimento para a vida” porque a regeneração e a fé sempre envolvem tristeza e confissão de nossa pecaminosidade. Esta ideia é confirmada em muitas passagens, tais como 1 Coríntios 6.11.
E o Espírito continua aplicando-nos o perdão durante toda a nossa vida. Ele é o que mantém nossa fé, que nos guia a um arrependimento diário, e que continuamente aplica o perdão a nós. Observamos isto em lugares como Romanos 8.1-16 e Gálatas 5.5. Apenas como um exemplo, vejamos o que Paulo escreveu em 2 Tessalonicenses 2.13:
... porque desde o princípio Deus os escolheu para serem salvos mediante a obra santificadora do Espírito e a fé na verdade.
Aqui Paulo escreveu que os crentes são salvos pelas obras do Espírito que nos limpa do pecado e da injustiça, isto é, as obras do Espírito que aplicam perdão a nós. E o Espírito continua aplicando o perdão a nós enquanto nós continuamos crendo na verdade.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo demonstram a graça salvífica para nós. E isto tem ao menos três implicações para nossa vida. Primeiro, quando nós pecamos e apelamos a Deus por perdão e outros aspectos da salvação, estamos corretos em fazer conhecidas nossas petições às três pessoas divinas. Segundo, quando recebemos estas bênçãos, nós deveríamos dar graças às três pessoas da Trindade. E terceiro, podemos ter grande confiança em nossa salvação, sabendo que as três pessoas da Trindade nos ama e trabalham para assegurar nossa redenção. O Pai, o Filho e o Espírito Santo trabalham juntos, para nosso benefício, para resolver o problema do pecado.
Havendo observado o perdão dos pecados a partir das perspectivas do problema do pecado e da graça divina, estamos prontos para falar acerca do papel que a responsabilidade individual desempenha no perdão.
Responsabilidade Individual
A Escritura ensina claramente que Deus não perdoa o pecado de cada pessoa. Algumas pessoas são perdoadas e outras não. Porque isto é verdade? De uma perspectiva humana, a razão é que o processo do perdão ordinariamente envolve um elemento de responsabilidade individual. Falando de forma geral, aquelas pessoas que cumprem estas responsabilidades são perdoadas, mas aqueles que fogem destas responsabilidades não são.
Nossa discussão do papel da responsabilidade individual se dividirá em duas partes. Primeiro mencionaremos algumas condições que a Escritura identifica como exigências ordinárias do perdão. E segundo, falaremos acerca dos meios para receber perdão. Comecemos com as condições que a Escritura associa com o perdão.
Condições
A Escritura fala de duas condições primárias de perdão. Primeiro, fala da fé como pré-requisito do perdão. Na Escritura, a fé é um conceito multifacetado. Mas, nesse contexto, quando falamos da fé em Deus, nós temos em mente:
O reconhecimento da soberania de Deus, a submissão leal a Ele, e a confiança de que Ele nos mostrará sua misericórdia por causa do nosso Redentor Jesus Cristo.
Apesar de poder soar estranho para os ouvidos modernos, a Escritura muitas vezes refere-se a este de fé como “temor de Deus”. Por exemplo, o Salmo 103.8-13 descreve a natureza condicional do perdão desta forma:
O Senhor é compassivo e misericordioso, mui paciente e cheio de amor. Não acusa sem cessar nem fica ressentido para sempre; não nos trata conforme os nossos pecados nem nos retribui conforme as nossas iniqüidades. Pois como os céus se elevam acima da terra, assim é grande o seu amor para com os que o temem; e como o Oriente está longe do Ocidente, assim ele afasta para longe de nós as nossas transgressões. Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem.
Notemos que são aqueles que temem ao Senhor que recebem seu perdão, cujas transgressões são removidas.
Esta mesma ideia se encontra em toda a Bíblia. Por exemplo, nós a encontramos em 2 Crônicas 30.18-19, onde o Senhor disse que perdoa àqueles que prepara seu coração para buscá-lo. Em Marcos 4.12, Jesus indicou que só aqueles que consideram e entendem ao Senhor podem ir a Ele para obter perdão. E em Atos 26.17-18, o perdão só pode ser obtido por aqueles cujos olhos foram abertos à verdade da glória e do poder do Senhor.
A segunda condição ordinária do perdão encontrada na Escritura é o quebrantamento. O quebrantamento é:
Uma tristeza genuína por causa do pecado; um verdadeiro lamento por ter violado a lei de Deus.
Não é simplesmente o lamento por haver sido descoberto ou castigado, mas concordar que as exigências do Senhor são santas, e um coração contrito por ter falhado em honrá-lo.
Em termos de contrição, fomos feitos, todos nós, para sentir a culpa de nosso pecado. Penso em Davi, depois de haver pecado com Bate-Seba. Sim, ele havia pecado contra Bate-Seba e contra o esposo dela. Ele havia pecado contra a igreja do Antigo Testamento, mas, principalmente, “contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas”. E você sente algo de contrição em seu coração. Em termos modernos, creio que é quebrantamento, e nos necessitamos dessa palavra, para que o Espírito nos quebrante, nos quebrante na presença de Deus.
- Dr. Derek W. H. Thomas
Por exemplo, em 2 Samuel 11, Davi não mostra remorso quando ele comete adultério com Bate-Seba, e depois ele arranja a morte de seu esposo Urias para ocultar a gravidez dela. Ele viveu sem tristeza por suas ações durante toda a gravidez de Bate-Seba, até que a criança nasceu. Então, o profeta Natã confrontou o seu pecado, como o vemos em 2 Samuel 12. Somente então, Davi admitiu seu crime e sentiu profunda condenação a esse respeito. Então, em espírito de verdadeiro quebrantamento, ele escreveu o Salmo 51, seu grande salmo de arrependimento, para expressar a profundidade de sua tristeza e lamento. Vejamos o que Davi escreveu no Salmo 51.6 e 17:
Eis que te comprazes na verdade no íntimo... Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.
Davi reconheceu que para poder receber o perdão de Deus, ele precisava compartilhar a perspectiva de Deus sobre seu pecado. Ele necessitava odiar o que havia feito, e sentir-se realmente arrependido dele.
Observamos esta mesma ênfase de quebrantamento no Salmo 32.1-2, onde o perdão vem para aqueles em quem não há dolo. Nós encontramos isso em Isaias 55.7, onde a misericórdia de Deus é dada àqueles que abandonam seu pecado. E vemos isso em Jeremias 5.3, onde o perdão é negado àqueles cujos corações são duros devido a seu pecado.
Creio que cultivamos contrição – que é o coração do arrependimento – quando focamos nossas mentes na santidade de Deus. Podemos fazer isso ao contemplar o que a Bíblia diz desde Gênesis até Apocalipse acerca do Deus que não pode ter companheirismo com gente desobediente, mas que julga a desobediência, e traz castigo àqueles que transgridem. Essa é a santidade de Deus em sua exata essência. E, quando pensamos sobre a santidade de Deus, nós voltamos a ver o registro de nossas próprias vidas para observar algumas das formas em que temos transgredido, desobedecido, nos afastado em desprezo aquilo que o Deus nos diz, trazendo uma desordem às nossas vidas de maneira que desonra a Ele. Agora então, pensamos de novo: todo o castigo que era para nós, recaiu sobre os ombros de Cristo e foi suportado por ele. E isto nos diz que tão graves são os nossos pecados, que só podem ser expiados pela morte do Filho encarnado de Deus por nós. E tão logo nos damos conta da gravidade de nosso pecado à luz da santidade de Deus e do que foi exigido para que eles fossem perdoados, nosso senso da gravidade do pecado se fará mais agudo, nossa contrição mais profunda, e de tudo isso sairá um intento honesto de novo, de novo e de novo de nos comprometermos com Deus para santidade, para dizer a ele o quanto lamentamos e que, de fato, odiamos os pecados que fizeram que a expiação fosse necessária.
- Dr. J.I. Packer
As condições de fé e quebrantamento são importantes para a vida de todas as pessoas, sejam crentes ou não crentes. Para aqueles que não receberam a Cristo como Senhor e Salvador, estas condições são oportunidades para que eles venham a Deus e que seus pecados sejam perdoados, e para começar uma vida em Cristo. Para todos nós que já pertencemos ao Senhor, são lembretes de que necessitamos viver vidas de constante fé, e está realmente arrependidos dos pecados que continuamente cometemos, para que possamos continuar recebendo perdão e purificação diariamente.
Agora que já observamos que as condições de perdão normalmente incluem Deus operando fé e quebrantamento em nossos corações, observaremos os meios ordinários com os quais podemos receber perdão.
Meios
Algumas vezes, os cristãos falham em distinguir entre os meios de graça e a base da graça. Como resultado, eles equivocadamente pensam que os meios de graça podem ser usados para obter graça, ou mesmo para forçar Deus a nos mostrar graça. Então, é importante distinguir claramente entre os meios e as bases.
Para ajudar a ver esta distinção, imagine que uma pessoa precisa de terapia física para recuperar-se de uma lesão. A terapia é cara, e é paga por um doador. Poderíamos dizer que os meios pelos quais uma pessoa se recupera completamente é a terapia. Mas a base financeira para essa recuperação seria a doação.
Poderíamos resumir estas diferenças ao dizer que a base é o fundamento ou mérito no qual se baseia uma ação ou conseqüência, e que os meios são uma ferramenta ou mecanismo para levar a cabo essa ação ou conseqüência.
Quando se trata de receber perdão e graça de Deus, a base é sempre o mérito de Cristo, o qual ele obteve por sua vida obediente e sua morte sacrificial na cruz. Nós podemos ver isso em passagens como Mateus 26.28, Colossenses 1.13-14 e, 1 João 2.12. O perdão é sempre ganho. Mas é ganho por Cristo, não por nós. E o meios fundamental pelos qual toda graça é aplicada às nossas vidas é a fé. Seja expresso diretamente a Deus, ou através dos meios de graça, a fé é a ferramenta principal através da qual Deus aplica graça e outras bênçãos a nossas vidas.
A Escritura menciona diversos meios através dos quais a fé normalmente trabalha. Para os propósitos dessa lição, podemos resumir estes meios em duas categorias gerais, começando com a oração.
Através da Escritura, a oração é apresentada como um meio ordinário para pedir a Deus por graça e perdão. Por exemplo, a Bíblia comumente fala de orações de confissão e arrependimento como expressões de fé através das quais o Espírito Santo nos aplica o perdão. A efetividade destas orações é ensinada em 1 Reis 8.29-40, Salmo 32.1-11, Atos 8.22, 1 João 1.9, em muitas outras passagens.
Para aqueles que acabam de conhecer ao Senhor, orações fiéis de confissão e arrependimento são os meios através do qual o Espírito Santo aplica inicialmente perdão e salvação a suas vidas. Esta é a razão pela qual a igreja se refere à conversão como “arrependimento para vida”, em Atos 11.18. E para todos os crentes, as orações de confissão e arrependimento continuam sendo importantes meios de receber a graça de Deus em nossas vidas. Como lemos em 1 João 1.9:
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.
As maravilhosas novas do Evangelho é que Deus livremente perdoa nossos pecados com base no que Cristo fez por nós. E podemos receber este perdão simplesmente pedindo-lhe com fé.
Muitas pessoas pensam que se ensinarmos que Deus perdoa aos pecadores, simplesmente pelo fato de vir a Ele dizendo: “Perdoa-me Pai Celestial”, isso baratearia a graça de Deus. Mas, o fato é que isso exalta a graça de Deus, não porque nosso arrependimento nos salva, ou porque é a base pela qual Deus nos perdoa, mas porque Deus mesmo providenciou a base de nosso perdão e reconciliação na infinitamente valiosa e incalculavelmente cara morte de Seu Filho Unigênito.
- Dr. J. Ligon Duncan III
O fato de que Jesus Cristo, o Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade veio à terra e passou trinta anos em humildade e servidão, e depois sofreu e morreu na cruz – levou a divida eterna do pecado na cruz para pagar a penalidade de nossos pecados. É um preço eterno, um custo eterno, e um curso enorme, um custo infinito por nossos pecados. Isto não é graça barata. Esta é a graça mais cara que já alcançada. Nós a recebemos como um presente gratuito, mas somente porque Jesus deu tudo de si por nós.
- Dr. Mark Strauss
Todo aquele que vem a Ele e simplesmente diz: “Perdoa-me, Senhor” é perdoado. Não porque sua petição de perdão fora nobre, ou porque seu arrependimento tenha sido muito bom, mas porque Jesus fez tudo o que era necessário para que nós sejamos reunidos em companheirismo com nosso pai celestial.
- Dr. J. Ligon Duncan III
Devemos agora fazer uma pausa para mencionar que além das orações confissão e arrependimento, que funcionam como meios ordinários de perdão, oração de intercessão algumas vezes funcionam como extraordinário ou incomuns meios de perdão. A intercessão pode ser definida como: mediação; ou petição ou oração em benefício de outros.
As Escrituras registram muitos exemplos bíblicos de pessoas oferecendo orações intercessórias efetivas. Observamos isso em Número 14.19-20, onde o Senhor perdoou o pecado de Israel em resposta à oração intercessória de Moisés. Encontramos em 2 Crônicas 30.18-20, onde o Senhor perdoou às pessoas que não haviam preparado a páscoa apropriadamente em resposta à intercessão de Ezequias. Observamos em Jó 1.5, onde aprendemos que Jó regularmente oferecia sacrifícios efetivos de intercessão por seus filhos. E o vemos em Tiago 5.14-15, onde Tiago ensinou que os anciãos da igreja podem obter perdão para aqueles que pecaram. Deus nem sempre outorga o perdão em resposta às orações intercessórias dos fiéis. Mas muitas vezes, Ele o faz.
E além destes tipos de intercessões humanas, tanto o Filho quanto o Espírito Santo intercedem pelas pessoas. A intercessão que Jesus oferece é mencionada em passagens como Isaías 53.12, Romanos 8.34, e Hebreus 7.25. E a intercessão do Espírito é ensinada em Romanos 8.26 -27.
A segunda categoria geral dos meios de perdão são os sacramentos, ou o que muitas igrejas protestantes modernas chamam de “ordenanças”, isto é, o batismo e a ceia do Senhor.
Quando usamos o termo “sacramento” precisamos ser claros que não estamos falando do ponto de vista que a Igreja Católica tem da ceia do Senhor e do batismo. Ao contrário, a palavra “sacramento” tem sido usada historicamente por muitas denominações protestantes para se referir à ceia do Senhor e o batismo. Estas cerimônias são especiais, santas ordenanças que Deus deu à igreja como meios para expressar nossa fé e receber sua bênção. As tradições protestantes diferem sobre os detalhes do funcionamento destas ordenanças. Mas todas estão de acordo que, de alguma forma, elas são especiais.
Algumas vezes os cristãos suspeitam quando escutam outros falar acerca da ceia do Senhor e do batismo como meios de perdão. Assim, é importante enfatizar que não estamos dizendo que estas ordenanças têm algum mérito em si mesmas que as tornem efetivas. Elas não são as bases do perdão.
Ao mesmo tempo, a Bíblia ensina que quando nós expressamos nossa fé através da ceia do Senhor e do batismo, o Espírito Santo usa estas ordenanças para aplicar o perdão à nossas vidas.
O batismo é mencionado como um meio de graça em passagens como Marcos 1.4, Atos 2.38, Romanos 6.1-7 e Colossenses 2.12-14. Para citar um exemplo, vejamos as palavras de Ananias a Paulo em Atos 22.16:
E agora, que está esperando? Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele.
Nestas instruções, Ananias indicou que os pecados de Paulo podiam ser perdoados ou “lavados” através do batismo.
É claro que o batismo não é um meio necessário de perdão. Também podemos ser perdoados através de outros meios. Por exemplo, o ladrão que veio à fé enquanto estava crucificado com Jesus nunca foi batizado. Entretanto, Lucas 23.43 indica que ele foi perdoado e salvo. Então, nós não deveríamos cometer o erro de pensar que o perdão e a salvação só estão disponíveis para aqueles que foram batizados. Entretanto, a Bíblia deixa bem claro que o batismo ordinariamente funciona como um meio para aplicar o perdão a nossas vidas.
E o mesmo é verdade com relação à ceia do Senhor. Paulo explicitamente ensinou que o ser partícipe da ceia do Senhor é um meio para receber os benefícios da morte de Cristo, tal como o perdão. Vejamos o que Paulo escreveu em 1 Coríntios 10.16:
Não é verdade que o cálice da bênção que abençoamos é uma participação no sangue de Cristo, e que o pão que partimos é uma participação no corpo de Cristo?
Estas foram perguntas retóricas. Todos, ao ler a epístola de Paulo sabiam que as respostas eram “sim, é claro”. Ao ser participe da ceia do Senhor em fé, nós estamos unidos a Cristo.
O perdão dos pecados é uma grande bênção de salvação que experimentamos através de nossas vidas cristãs. Se formos novos convertidos, ou crentes há muito tempo, o perdão é um aspecto contínuo de nosso andar com Cristo. E também resulta em muitas outras bênçãos.
John Wesley, fundador da Igreja Metodista, que viveu de 1703 a 1791, falou acerca do perdão em sermão número 26, no qual ele expôs o sermão do monte. Escutemos o que ele disse nesse sermão:
Tão logo recebemos o perdão dos pecados... obtemos igualmente “sorte entre os santificados pela fé nele”. O pecado perdeu seu poder; não tem domínio sobre aqueles que estão debaixo da graça, ou seja, aqueles que gozam do favor de Deus. Posto que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”, eles estão livres do pecado e da culpa; “a justiça da lei se cumpre neles” e “não andam segundo a carne, mas conforme o Espírito”.
Penso que o perdão dos pecados, é de certa forma, a realidade mais preciosa que temos como cristãos. Fundamentalmente o que significa ser perdoado de nossos pecados é está em uma relação correta com Deus, com nosso Criador. Quando observamos o mundo de hoje, vemos que as pessoas anelam por aceitação, significado, propósito. E há tanta confusão em nossa cultura. De que se trata a vida? Qual é a razão de viver? Por que estou aqui? E as pessoas procuram todo tipo de coisa para encontrar significado e sentido – seja em seu trabalho, sexualidade ou drogas. Quero dizer que há todo tipo de lugares e caminhos onde as pessoas estão tratando de encontrar felicidade e gozo. Mas o Evangelho nos diz que nossa necessidade fundamental como seres humanos é está em uma relação reta com nosso Criador, com Aquele que nos fez. O Evangelho diz que Deus enviou Seu Filho, Jesus Cristo, para expiar nossos pecados, para absorver a ira de Deus. Deus em seu amor enviou a seu Filho para que nossos pecados fossem perdoados. Se colocarmos nossa confiança nele, podemos ser perdoados de nossos pecados. E quando temos esta experiência, quando vamos a Jesus para receber perdão há um incrível sentimento de paz, um sentido de retidão com o mundo porque verdadeiramente é retidão com o mundo. De repente nos damos conta de que isto é para o que fomos criados. Fomos criados para está em uma correta relação com Deus. Isso, o reconhecemos nesse momento.
- Dr. Tom Schreiner
RESURREIÇÃO
Agora que exploramos a doutrina do perdão dos pecados, estamos prontos para considerar nosso seguinte artigo de fé: a ressurreição do corpo. Lembremos estas palavras do Credo Apostólico:
Creio...
Na ressurreição do corpo
Precisamos deixar claro nesse ponto que o Credo não está falando acerca da ressurreição de Jesus. A ressurreição de Jesus aparece antes no Credo quando diz que Jesus se levantou dentre os mortos ao terceiro dia. Quando o Credo fala da “ressurreição do corpo” tem em mente a ressurreição geral – a ressurreição de todas as pessoas quando Cristo regressar em glória.
Consideraremos a ressurreição geral do corpo em três etapas. Primeiro observaremos a maldição que resulta na morte de nossos corpos. Segundo, explicaremos que o Evangelho cristão oferece vida para nossos corpos. E terceiro, observaremos a forma em que nossos corpos eventualmente experimentam a redenção. Comecemos com a maldição que causa a morte dos nossos corpos.
Maldição
Como vimos em uma lição anterior, Deus criou seres humanos que consistiam de corpos físicos e almas não físicas. Baseados em Hebreus 4.12 e 1 Tessalonicenses 5.23, algumas tradições têm mantido que cada ser humano também possui um espírito além de uma alma. Mas, existem aproximadamente 200 versículos nos quais um ou outro termo é usado para referir-se a todo o interior, aos aspectos não físicos de nosso ser como um todo. Então, a maioria das tradições cristãs tem concluído que as palavras “alma” e “espírito” se referem à mesma realidade subjacente, e que os seres humanos consistem só de duas partes: corpo e alma.
Antes da nossa queda em pecado, nossos corpos e nossas almas não estavam afetados pelo pecado e seus poderes corruptores. Mas, quando adão e Eva caíram em pecado, o pecado corrompeu não só suas almas, mas também seus corpos. E esta corrupção de seus corpos resultou finalmente em sua morte física. Vejamos a maldição de Deus sobre Adão em Gênesis 3.19:
No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás.
Quando Adão e Eva pecaram contra Deus, Ele amaldiçoou a ambos. E parte desta maldição foi que eles seriam mortais. Eles eventualmente morreriam e retornariam ao pó. E devido ao fato de que todos os seres humanos descendem de Adão e Eva, todos nós nascemos com uma corrupção similar. Como Paulo escreveu em Romanos 5.12:
Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.
O pecado afetou a Adão e Eva tanto de forma física como espiritual. E devido ao fato de que somos seus descendentes naturais, nós carregamos a mesma maldição. Nossas almas vêm ao mundo em um estado que a Bíblia descreve como morte espiritual. Estamos debaixo do juízo de Deus, e temos perdido toda a habilidade para nos deleitarmos nele. Lemos sobre isso em Romanos 5.12-19, e 8.1-8.
E da mesma forma que Adão e Eva, nossos corpos também são corrompidos pelo pecado. Esta corrupção resulta em dificuldades físicas, enfermidades, e eventualmente morte. Paulo falou sobre isso em Romanos 6.12-19, e no capítulo 7.4-25. O pecado corrompe tudo o que somos – todo o nosso ser, corpo e alma. Mas a maravilhosa promessa de Deus é que a salvação em Cristo redime tanto nossas almas como nossos corpos.
Os cristãos não nunca devem ver a morte como algo normal. Muitas vezes transmitimos este tipo de ideia. Algumas vezes nos funerais podemos dizer: “Bem, viveu uma boa e longa vida”. E é somente na morte de alguma criança pequena ou na morte de alguém em seus vinte ou trinta anos que dizemos: “Oh” que terrível!”. Isto não é realmente um ponto de vista propriamente cristão da morte humana. O ponto de vista cristão da morte humana encara a morte como algo que é anormal. Fomos criados desde o começo para viver para sempre. Pensemos como, inclusive no registro da criação no sétimo dia Deus descansou. Ele entraria num gozo completo com Sua criação. Nós, portanto, devemos viver para sua glória e levar a cabo o mandato da criação. Não fomos criados para morrer. Ao contrário, o salário do pecado, a entrada do pecado a este mundo, Gênesis 3, o pagamento do pecado que o Apóstolo Paulo menciona, e do qual se fala em Gênesis 2, é a morte. Morte, que é física, morte que também é espiritual.
- Dr. Stephen Wellum
Num sentido, a morte física é uma bênção para os crentes dado que somos tomados diretamente à presença de Cristo. Mas em um sentido mais fundamental, a morte física é trágica. É uma experiência universal humana, mas também é horrivelmente antinatural. Deus não criou a humanidade para a morte; Ele a criou para a vida. E nossa salvação não será completa até que Cristo regresse e redima nossos corpos.
Havendo observado a maldição que resulta na morte de nossos corpos, agora vamos aos aspectos do Evangelho que asseguram nossa ressurreição.
Evangelho
Quantos de nós conhecemos cristãos que crêem que passarão a eternidade no céu como espíritos sem corpos? Provavelmente alguns. Tão estranho quanto possa soar, a doutrina da ressurreição do corpo é quase completamente desconhecida em algumas igrejas modernas. E uma razão disto é que os cristãos muitas vezes falham em entender a importância de nossos corpos. Mas, a Escritura claramente ensina as boas novas de que não só nossas almas, mas também nossos corpos serão glorificados quando Cristo voltar.
Exploraremos a ideia de que a ressurreição do corpo é parte do Evangelho, considerando três coisas. Primeiro mencionaremos o contexto do Antigo Testamento desta doutrina. Segundo, observaremos que ela é claramente proclamada no Novo Testamento. E terceiro, falaremos acerca da relação entre a ressurreição dos crentes e a ressurreição de Jesus. Vamos começar com o Antigo Testamento.
Velho Testamento
Muitos cristãos modernos não se dão conta disto, mas a palavra Evangelho, que significa boas novas, na verdade, vem do Velho Testamento. Em particular, a encontramos em Isaias 52.7 e 61.1 e Naum 1.15. Para citar um exemplo, ouçamos o que diz Isaías 52.7:
Como são belos nos montes os pés daqueles que anunciam boas novas, que proclamam a paz, que trazem boas notícias, que proclamam salvação, que dizem a Sião: “O seu Deus reina!”
No Antigo Testamento, as “boas novas” ou “evangelho” eram que Deus salvaria a seu povo vencendo os seus inimigos. Em um sentido estrito, estas eram as boas novas que Deus resgataria o seu povo da opressão de seus inimigos terrenos. Mas, em um sentido mais amplo, eram as boas novas de que Deus reverteria todas as maldições que resultaram da queda em pecado de Adão e Eva. Ele estenderia seu glorioso reino celestial sobre toda a terra, e finalmente bendiria a todos o que tivessem fé nele.
É claro que a salvação que Deus providenciou no Antigo Testamento estava baseada na futura vitória de Cristo. Apesar de Cristo ainda não ter vindo morrer pelos pecados, ele já havia prometido que morreria em beneficio de seu povo. E essa promessa foi suficiente para assegurar a salvação. De fato, toda esperança de salvação no Antigo Testamento apontava para Cristo e para o que ele realizaria. Vejamos a forma como Hebreus 10.1-5 descreve os sacrifícios do Antigo Testamento:
A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir... pois é impossível que o sangue de touros e bodes tire pecados. Por isso, quando Cristo veio ao mundo, disse: "Sacrifício e oferta não quiseste, mas um corpo me preparaste.
O autor de Hebreus indicou que os sacrifícios do Antigo Testamento eram só sombras da realidade que foi realizada posteriormente em Cristo. Os sacrifícios de animais nunca puderam expiar perfeitamente o pecado porque Deus requeria que o pecado humano fosse castigado com a morte humana. Mas, eles podiam e de fato apontavam para Jesus, cuja morte humana foi perfeitamente suficiente e uma expiação efetiva pelo pecado.
Como parte do Evangelho do Antigo Testamento, o povo de Deus foi ensinado que um dia Deus levantaria a todos os mortos, e os julgaria por suas obras. Aqueles que viveram retamente, tendo fé em Deus, seriam eternamente abençoados. Mas aqueles que se rebelaram contra Deus seriam condenados a um futuro de perpétuo sofrimento. Estes dois tipos de conseqüência continuariam para sempre em forma corporal. Os teólogos cristãos comumente se referem a este evento como o juízo final. Como vimos numa lição anterior, o Credo Apostólico, refere-se ao juízo final na linha:
De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Talvez a declaração mais clara da ideia de que o juízo final envolve a ressurreição do corpo pode se encontrada em Daniel 12, onde um mensageiro angelical se revelou a Daniel que no futuro Deus livraria o seu povo da opressão. Escutemos o que aparece em Daniel 12.1-2:
Mas naquela ocasião o seu povo, todo aquele cujos nomes se acham escritos no livro. Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno.
Daniel se refere especificamente à ressurreição do corpo quando fala daqueles que dormem no pó da terra. As almas não dormem no pó da terra; os corpos sim. E são esses corpos que se levantarão no juízo final. Isaias também falou do dia do juízo que incluía uma ressurreição geral. Vejamos o que ele escreveu em Isaías 26.19-21:
Mas os teus mortos viverão; seus corpos ressuscitarão. Vocês, que voltaram ao pó, acordem e cantem de alegria... A terra dará à luz os seus mortos... Vejam! O Senhor está saindo da sua habitação para castigar os moradores da terra por suas iniqüidades...
De novo, observamos que os mortos, aqueles que habitam no pó, se levantarão de seus sepulcros com uma nova vida, como se a terra desse a luz a eles. E isto ocorrerá no contexto do juízo, quando o Senhor virá para castigar os moradores da terra por sua maldade.
A doutrina da ressurreição do corpo também está implícita em diversas passagens do Antigo Testamento que falam da liberação do sheol no contexto do juízo final e julgamento, tais como Salmo 49.7-15 e Salmo 73.24-28. E Jó 19.25-27, Jó expressou confiadamente sua crença de que ele seria ressuscitado para ver a Deus no dia que o Senhor se levantaria sobre a terra. O dia do juízo.
A ressurreição futura e juízo não são tão claros no Antigo Testamento quanto são no Novo. Mas certamente há indícios no Antigo Testamento de que isto é algo que acontecerá. Isaias, por exemplo, fala de um tempo no qual a pessoa morta viverá, sairá do seu sepulcro. Daniel fala de forma similar de um tempo quando os mortos sairão, os justos e os maus para o juízo final. E isto é algo que é uma crença que surgiu ao menos entre alguns judeus, mas não em todos. Os fariseus do tempo de Jesus criam na ressurreição. Os saduceus não. Mas o próprio Jesus, quando os saduceus vieram e lhe perguntaram se havia tal coisa, e lhe fizeram uma pergunta capciosa para fazê-lo parecer ridículo, Jesus citou a passagem quando Deus disse: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. E Jesus disse que Deus “não é Deus de mortos, mas de vivos”. Assim, quando Deus forma uma relação, uma relação de pacto com alguém, é realmente uma relação pessoal com esse individuo e se Abraão fosse permanecer na terra, e nunca fosse despertado de novo, não tem sentido dizer que Deus está em uma relação de pacto para sempre com Abraão. Assim, isso quer dizer que o Novo Testamento é, certamente, irrevogavelmente comprometido com a doutrina da ressurreição. E, é claro, a ressurreição de Jesus põe o selo final nisso.
- Dr. John Frame
Havendo visto que a ressurreição geral era parte do Evangelho no Antigo Testamento, observaremos o fato de que também é parte da mensagem do Evangelho no Novo Testamento.
Novo Testamento
A maior diferença entre a proclamação do Evangelho do Antigo e do Novo Testamento é que no Novo Testamento, o Redentor finalmente chegou. Ele foi finalmente revelado na história como Jesus de Nazaré. Deus estava agora reinando através de Seu Filho, Jesus. Isto é a razão pela qual o Novo Testamento muitas vezes enfatiza que Jesus é Senhor, querendo dizer que ele é o rei prevalecente. Vemos isto em alguns textos como Lucas 2.11, Atos 2.36, Romanos 10.9, e 1 Coríntios 12.3.
A salvação vem da mesma forma no Antigo Testamento e no Novo, pela fé na promessa da provisão de Deus. O que é diferentes acerca da fé no Antigo Testamento e a fé no Novo, não é a fé em Deus, mas a especificidade com a qual a promessa é dada. A fé no Antigo Testamento é fundamentalmente observar a promessa que vai ser ainda cumprida. A fé no Novo Testamento é olhar em retrospectiva para a cruz na promessa que já foi cumprida. Assim, ambas envolvem a fé diretamente em Deus por uma provisão que Ele fará e que nós não podemos suprir.
- Dr. Robert G. Lister
Em Jesus, todas as promessas de salvação do Antigo Testamento são cumpridas. Como vimos em Hebreus 10.1-5, sua morte é a realidade para a qual apontam os sacrifícios do Antigo Testamento. E em Romanos 15.8-13 e Gálatas 3.16, Paulo ensinou que o Evangelho de Jesus cumpre as promessas feitas aos patriarcas do Antigo Testamento – boas novas de que o divino Rei já veio finalmente para trazer salvação a seu povo por graça através da fé.
Jesus ensinou que a ressurreição geral tomaria lugar no juízo final. Por exemplo, em Mateus 22.23-32 e Lucas 20.27-38, ele refutou a negação dos saduceus da ressurreição geral. Em Lucas 14.13-14 ele animou os crentes a fazer boas obras com base em que eles seriam recompensados na ressurreição. E em João 11.24-26, ele confirmou a doutrina em sua conversa com Marta, a irmã de Lázaro. Escutemos o que Jesus disse em Lucas 10:37:
E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o indicou no trecho referente à sarça, ...
Aqui, Jesus insistiu que a doutrina da ressurreição geral já havia sido revelada no Antigo Testamento.
E esta mesma ideia é confirmada através do resto do Novo Testamento. Desafortunadamente, em muitos ramos da igreja, a ressurreição corporal é bastante ignorada. Muitos cristãos crêem que permaneceremos como espíritos sem corpos por toda a eternidade. Mas, em Hebreus 6.1-2, a ressurreição do corpo é descrita como uma das doutrinas básicas da fé cristã. E em Hebreus 11.35, a ressurreição dos crentes se mantém como motivação para fazer boas obras. De fato, os apóstolos sinalizaram regularmente que os cristãos criam nas promessas de ressurreição do Antigo Testamento. Por exemplo, Pedro e João fizeram isto em Atos 4.1-2. E Paulo o fez em Atos 23.6-8 e 24.14-21. Para citar mais um exemplo, vejamos como Paulo defendeu seu ministério em Atos 24.14-15:
Porém confesso-te que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que estejam de acordo com a lei e nos escritos dos profetas, tendo esperança em Deus, como também estes a têm, de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos.
Aqui, Paulo mencionou que a esperança cristã na ressurreição geral no juízo final foi precisamente a mesma esperança judia. A diferença era que os cristãos criam que esta ressurreição se cumpriria através de Jesus Cristo.
É importante para nós entendermos que o plano de salvação de Deus sempre foi o mesmo. Ele não designou uma forma para o antigo Israel ser salvo, e outra forma para que nós sejamos salvos. Ele não designou uma forma de salvação para os judeus e outra para os gentios.
O Antigo e o Novo Testamento estão unidos em seu ensino. E este ensino é parte da razão pela qual os cristãos valorizam o Antigo Testamento como Palavra de Deus para suas vidas. O povo de Deus sempre foi salvo pela graça, através da fé, e em Cristo. Os cristãos são parte de uma longa história de misericórdia e redenção que Deus sempre providenciou para seu povo fiel. E toda a Bíblia – ambos os Testamentos – nos ensina, acerca desta maravilhosa verdade.
Agora que já vimos que tanto no Antigo Testamento como no Novo o Evangelho incluiu as boas novas de que haverá uma ressurreição do corpo, vejamos a relação entre a ressurreição dos crentes e a ressurreição de Jesus.
Ressurreição de Jesus
O Novo Testamento ensina que há ao menos duas conexões importantes entre a ressurreição de Jesus e a ressurreição dos crentes.Primeiro seremos ressuscitados para uma vida bendita especificamente devido a que estamos unidos a Jesus em sua ressurreição. Como Paulo escreveu em Romanos 6.4-5:
Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição.
Paulo ensinou que através da fé, o batismo nos une à morte de Cristo, resultando no pagamento da dívida que incorremos em nosso pecado. Mas, também nos une a sua ressurreição, resultando na regeneração de nossos espíritos na vida presente, e na ressurreição de nossos corpos físicos num tempo futuro. Nossa união com a ressurreição de Jesus é também ensinada em lugares como 1 Coríntios 15.21-22, Filipenses 3.10-12 e Colossenses 2.12.
Como resultado do fato de que estamos unidos a Cristo em sua ressurreição, nossa própria ressurreição é garantida. Ouçamos o que Paulo escreveu em 1 Coríntios 15.20-23:
Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos... Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda.
Aqui Paulo se referiu à ressurreição de Jesus como as primícias da colheita que inclui a todos os que são dele.
No Antigo Testamento, Deus exigia a Israel que lhe levasse uma oferta das primícias da colheita. Observamos isto, por exemplo, em Levítico 23.17. Estas primícias eram só a primeira parte de toda colheita, e elas representavam toda a colheita. Elas eram uma forma de garantia – ao dar ao Senhor a primeira parte da colheita, os israelitas expressavam a fé que eles receberiam o resto da colheita. Ao dar-nos a ressurreição de Jesus, Deus demonstrou sua completa intenção de ressuscitar-nos da mesma forma. Então, como crentes, podemos ter grande confiança em nossa própria ressurreição futura, sabendo que Deus nos selou para aquele dia pela ressurreição de Cristo.
Até esse ponto em nosso estudo sobre a ressurreição do corpo, temos observado a maldição que resulta na morte dos nossos corpos, e o Evangelho que oferece vida a nossos corpos. Agora, estamos prontos para considerar a forma em que nossos corpos experimentam a redenção.
Redenção
Consideraremos a redenção de nossos corpos em três etapas. Primeiro, as coisas que os crentes experimentam durante sua vida presente na terra. Segundo, o estado intermediário de nossos corpos que começa com nossa morte física. E, terceiro, a nova vida da própria ressurreição, que começará quando Cristo regressar. Vamos começar com nossa vida presente.
Vida Presente
Ainda que os cristãos normalmente falem da ressurreição de nossos corpos em termos de nossa ressurreição no último dia, a Bíblia ensina que a salvação de nossos corpos começa com a morada do Espírito Santo quando primeiro vimos à fé. Esta morada é mencionada, por exemplo, em Romanos 8.9-11. Apesar de não resultar em nossa ressurreição corporal imediata, nos sela com a garantia de uma redenção completa de nossos corpos no futuro, como Paulo ensinou em Efésios 1.13-14.
E nossos corpos continuam beneficiando-se da morada e presença do Espírito Santo ao longo das nossas vidas, especificamente através do processo de santificação. A santificação de nossos corpos é similar à santificação de nossas almas. O Espírito Santo nos separa para Deus e nos purifica. Ele continua santificando-nos ao longo da nossa vida, enquanto perdoa os pecados que cometemos com nossos corpos, e assegura que usemos nossos corpos de forma que honre ao Senhor. Idealmente, isto resulta em que honramos a Deus com nossos corpos, como Paulo ensinou em 1 Coríntios 6.20, e oferecendo nossos corpos como sacrifício vivo, como lemos em Romanos 12.1.
Depois de começar com a redenção de nossos corpos na vida presente dos crentes, o processo continua durante nossa morte física.
Estado Intermediário
Quando morremos, nossos corpos são temporariamente separados de nossas almas. Esta etapa é muitas vezes chamada de estado intermediário – o estado entre nossas vidas na terra agora e as vidas que teremos na ressurreição. Durante o estado intermediário, nossas almas moram com Cristo no céu. A Escritura fala acerca disto em Mateus 17.3 e 2 Coríntios 5.6-8.
Mas enquanto nossas almas estão no céu, nossos corpos permanecem na terra. Nossos corpos seguem sendo corruptos por causa do pecado, como pode ser comprovado nos fato de que está se deteriorando. Mas o pecado que os corrompe já não tem influência sobre nós para nos fazer pecar. Por um lado, a morte nos livra do domínio do pecado, como Paulo ensinou em Romanos 6.2-11. Por outro lado, nossos corpos permanecem no sepulcro em um estado inconsciente, sendo incapazes de qualquer pensamento, ação ou entendimento, seja bom ou mal.
Mas, apesar de nossos corpos e almas serem temporariamente separados na morte, a Bíblia nunca diz que nossos corpos deixam de ser parte de nós. Se eles foram sepultados, ou cremados, ou aparentemente perdidos, nossos corpos continuam sendo parte de nós. Há dezenas de exemplos disto na Bíblia. Por exemplo, 1 Samuel 25.1 diz que Samuel foi sepultado em sua casa em Ramá. 1 Reis 2.10 diz que Davi foi sepultado em Jerusalém, a cidade de Davi. E o refrão que aparece em 1 e 2 Reis, assim como em 2 Crônicas, é que os réus de Judá foram sepultados na cidade do seu antepassado Davi. Seus corpos continuam lhes pertencendo, e continuam sendo parte de suas pessoas. O Catecismo Menos de Westminster descreve nossa morte desta maneira na pergunta e resposta número 37. Em resposta à questão:
Quais são as bênçãos que os crentes recebem de Cristo na hora da morte?
O catecismo responde:
As almas dos crentes, na hora da morte, são aperfeiçoadas em santidade, e imediatamente entram na glória; e seus corpos, estando ainda unidos a Cristo, descansam na sepultura até à ressurreição.
Aqui, o Catecismo diz que os crentes têm dois destinos na morte – uma para suas almas, e uma para seus corpos. Nossas almas passam à glória no céu, mas nossos corpos, estando ainda unidos a Cristo, repousam em suas sepulturas – permanecem em estado inativo, esperando pela nova vida na ressurreição.
Penso que é verdade dizer que quando nossa alma está no céu e nosso corpo no sepulcro, sim, estamos em dois lugares ao mesmo tempo. Isto requer uma explicação e a resposta no Breve Catecismo é muito boa neste ponto. As almas dos crentes, na hora da morte, são aperfeiçoadas em santidade, e imediatamente entram na glória; e seus corpos, estando ainda unidos a Cristo, descansam na sepultura até à ressurreição. A primeira parte de que a alma se separa do corpo é o tema em 2 Coríntios 5.1-10. Paulo fala de seu corpo presente e mortal como uma habitação terrena e ele não se anima com a perspectiva da morte porque a sua alma será separada de seu corpo, o que é um estado não natural.
- Dr. Knox Chamblin
Esta tensão de estar em dois lugares ao mesmo tempo é sentido mesmo no céu. Não há dúvida de que o céu será maravilhoso acima das nossas expectativas. Mas também é verdade que no céu nossa salvação não será completa porque nossos corpos não terão sido ainda ressuscitados. Vejamos como Paulo falou acerca da ressurreição do corpo em Romanos 8.23:
E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo.
Aqui, Paulo diz que nossos gemidos nesta vida são por causa de que ainda não temos nossos corpos ressuscitados. Mas, as almas no céu estão esperando por novos corpos, também. Então, tem sentido pensar que elas também gemem, em certo sentido, enquanto esperam a redenção de seus corpos.
Algumas pessoas pensam que os corpos que receberemos são só trajes convenientes, um equipamento opcional, e que nós estamos absolutamente contentes e felizes em ser desencarnados. Isso parece um pouco mais platônico que bíblico. Então, o que significa está neste estado intermediário entre a morte pessoal e a ressurreição prometida do corpo? Como é? Não nos foi dada nenhuma reportagem fotográfica sobre isso. Não nos foi dada descrições detalhadas disso. Mas a resposta que a Escritura nos tem dado é bastante segura e altamente relacional. Nós estaremos com o Senhor.
- Dr. Glen Scorgie
Com nossa vida presente e nossa morte física em mente, estamos prontos para ver como a redenção de nossos corpos é completada na nova vida.
Nova vida
Nossos corpos receberão uma vida nova e perfeita quando forem restaurados à vida na ressurreição geral. Na ressurreição, as conseqüências do pecado finalmente e para sempre serão completamente retiradas de nós. Lemos isto em Romanos 8.23, 1 Coríntios 15.12-57 e Filipenses 3.11. Os teólogos muitas vezes se referem à esta etapa da salvação como glorificação porque resulta em que nós seremos feitos seres humanos perfeitos e gloriosos. A Escritura não nos dá muitos detalhes com respeito à nossa glorificação. Mas Paulo brevemente comparou nossos corpos glorificados com nossos corpos existentes em 1 Coríntios 15. Ouçamos o que ele escreveu em 1 Coríntios 15.42-44:
Assim será com a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual.
Não podemos ter plena certeza das continuidades e descontinuidades precisas entre os corpos que temos agora e os corpos que teremos na ressurreição. Assim como o corpo de Cristo foi submetido a mudanças na ressurreição, nossos corpos também serão mudados. Estes serão renovados e tornados perfeitos. Serão imortais, gloriosos, poderosos e espirituais. Mas também serão inteiramente humanos. Em nossa ressurreição, nós finalmente seremos as pessoas que Deus sempre planejou que fôssemos.
Nossos corpos morrem em conseqüência do pecado; a morte física é o juízo de Deus contra a maldade da humanidade caída. Mas, as boas novas é que o Evangelho proclama a restauração de nossos corpos. O Evangelho nos diz que Jesus veio redimir-nos como pessoas completas, de corpo e alma. E esta redenção é gloriosa. É motivo de alegria e celebração. Com a ressurreição de nossos corpos, nós finalmente seremos capazes de declarar a vitória sobre a morte. Estaremos finalmente preparados para herdar todas as bênçãos que Deus tem para nós nos novos céus e nova terra. E finalmente seremos capazes de ver com nossos próprios olhos a vitória de Jesus Cristo.
Até agora em nossa discussão da salvação, temos falado acerca dos artigos de fé no Credo Apostólico que tem a ver com o perdão dos pecados e com a ressurreição do corpo. Neste ponto, estamos prontos para ver nosso último tópico: a vida eterna.
VIDA ETERNA
O Credo Apostólico menciona a vida eterna em seu último artigo de fé:
Creio... na vida eterna.
Neste ponto, o credo tem em vista a vida eterna, muitas vezes chamada vida perdurável, que segue a ressurreição de nossos corpos. O Credo afirma a crença de que todo o povo fiel de Deus finalmente será recompensado com uma perfeita, bendita e incorruptível vida sem fim.
Apesar de haver muitas coisas que poderíamos dizer acerca da vida eterna, focaremos em três questões nessa lição. Primeiro mencionaremos o tempo da vida eterna. Quando começa? Segundo, falaremos acerca da qualidade da vida eterna. Como difere de outros tipos de vida? E terceiro, mencionaremos o lugar onde viveremos para sempre. Comecemos com o tempo de nossa vida eterna.
Tempo
Quando começa a vida eterna? Cristo disse que ele veio para tivéssemos vida em abundancia. Certamente ele está sugerindo que estar em Cristo, ser um discípulo de Cristo nos introduz a uma forma qualitativamente superior de vida, mas isso é a vida eterna? A vida eterna começa quando passamos dessa esfera de existência mortal para a vida mais além?É ali que a vida eterna começa? Bem, em um sentido sim. Mas em outro sentido, a nova vida, a vida ressurreta de Cristo, nos levará além do sepulcro e nos impulsiona para a vida eterna, uma eternidade sem fim com Deus, é uma vida que foi plantada como uma semente dentro de nós. Assim, a vida que nunca termina está começando agora e é importante entender que esta vida eterna não é uma vida definida com duração sem fim, mas uma vida qualitativamente como uma vida que é agora centrada em Cristo e centrada em Deus e se move para a completa restauração de tudo o que está destinado para os seres humanos. E nós participamos disso agora, mesmo enquanto estamos incrustados em um mundo doloroso, complicado e quebrado.
- Dr. Glen Scorgie
A Escritura muitas vezes diz que os crentes já possuem a vida eterna como uma realidade presente. Vemos isso em João 10.28, 1 Timóteo 6.12, 1 João 5.11-13, e em muitos outras passagens. Para citar um exemplo disto, escutemos o que Jesus disse em João 5.24:
Eu lhes asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida.
Jesus e os escritores do Novo Testamento algumas vezes falaram acerca da vida eterna como uma realidade presente que resulta da nossa união com Cristo. E é claro, isso é verdade. Nossas almas nunca morrerão, apesar de que nossos corpos morrem. A vida espiritual que possuímos agora é a mesma vida que teremos para sempre.
Por outro lado, a Escritura fala com mais freqüência acerca do fato de que se nos dará uma vida eterna como nossa herança no juízo final. Vemos isso em lugares como Mateus 25.46, Marcos 10.29-30, João 12.25, Romanos 2.5-7, e Judas 21. Para citar um exemplo, escutemos o que João escreveu em 6.40 do seu Evangelho:
Porque a vontade de meu Pai é que todo o que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.
Como João menciona aqui, a Escritura muitas vezes associa nossa completa recepção da vida eterna com a ressurreição de nossos corpos. Quando nossos corpos forem feitos vivos, viveremos para sempre, em corpo e alma, como completamente redimidos e seres humanos restaurados completamente.
Creio que é útil descrever o que recebemos em Cristo, através de nossa união com Cristo, como o que chamamos de “já” e “ainda não”. Me refiro a que os benefícios de Cristo, que incluem a vida eterna, “já” são nossos quando recebemos a Cristo, quando colocamos nossa fé em Cristo. São nossos –temos a vida eterna. Mas, por outro lado, ainda não, no sentido de que, mesmo quando recebemos a Cristo muitos de nós nos tornaremos velhos, nos enfermaremos, experimentaremos a morte, se Cristo não voltar antes. E, nesse sentido, então, o “ainda não” da vida eterna nos espera ainda. Então, o “já” e o “ainda não” nos ajuda a entender, que sim temos uma vida eterna, e ao mesmo tempo, a vida eterna nos espera nos céus e na nova terra.
- Dr. Jeffrey Jue
Há um sentido no qual é justo dizer que a vida eterna de nossas almas começa nesta vida quando somos regenerados. Mas, não estaremos completamente vivos até que nossos corpos sejam levantados no juízo final. Só então todo nosso ser viverá diante de Deus. Antes disso, temos uma antecipação da vida eterna através da redenção de nossas almas. Mas só quando nossos corpos também tenham uma vida nova, nós estaremos prontos para viver como Deus tem planejado.
Com este entendimento do tempo da vida eterna na mente, agora vejamos sua qualidade.
Qualidade
Na Bíblia, a vida eterna não é simplesmente uma questão de ter nossa existência e consciência para sempre. Afinal de contas, mesmo as pessoas que estão debaixo do eterno juízo de Deus também têm existência e consciência contínuas. Ao contrário, a importância da qualidade da vida eterna é que viveremos para sempre nas bênçãos de Deus. Neste sentido, ter vida é receber o favor de Deus e suas bênçãos. E, por contraste, sofrer a morte é está debaixo da sua ira e maldição. Tanto a vida eterna como a morte eterna envolvem uma existência contínua. A diferença entre elas é a qualidade desta existência. Como Jesus orou em João 17.3:
Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.
Aqui, Jesus ensinou que a vida eterna é equivalente a conhecer a Deus e a Jesus. Neste contexto, a ideia de conhecer implica numa relação amorosa. O ponto de Jesus foi que a vida eterna não está definida meramente em termos de existência ou consciência, mas em termos de experiência do amor de Deus. Ou consideremos a forma como Paulo falou acerca da vida e da morte em Romanos 7.9-11, onde escreveu o seguinte:
Antes, eu vivia sem a lei, mas quando o mandamento veio, o pecado reviveu, e eu morri. Descobri que o próprio mandamento, destinado a produzir vida, na verdade produziu morte. Pois o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, enganou-me e por meio do mandamento me matou.
Durante todo o período que Paulo descreveu aqui, ele estava física e mentalmente vivo. Ele existiu como um ser racional e com consciência. Ainda assim, ele afirmou primeiro o fato de estar vivo, e depois haver morrido, haver sido posto à morte. E a diferença era sua presença diante de Deus. Antes que a lei o condenasse, ele estava vivo. Mas uma vez que a lei o pôs debaixo da maldição de Deus, Paulo morreu. Depois, quando ele veio a Cristo e a maldição foi suspensa, ele podia ser descrito como tendo uma nova vida. Vemos esta mesma ideia em lugares como João 5.24, e 1 João 3.14.
Pensemos nisso desta forma: No último dia, todos os mortos se levantarão na ressurreição geral. Nossas almas imortais serão reunidas com nossos corpos ressuscitados. De acordo com João 5.28-29, aqueles que hão feito o bem se levantarão para ser recompensados, e aqueles que hão feito o mal se levantarão para ser condenados. Ambos viverão vidas conscientes com seus corpos ressuscitados para sempre. Mas, a Bíblia chama o destino dos justos de vida, e o destino dos ímpios de morte. A diferença não é se eles vão existir ou se vão pensar ou ter experiência. A diferença é sua relação com Deus. Se estivermos debaixo da benção de Deus, a Bíblia diz que estamos vivos. Se estivermos debaixo da maldição, diz que estamos mortos. Então, a vida eterna é uma contínua existência consciente em uma relação bendita com Deus. Mas, quais são estas bênçãos? Como é uma vida bendita?
Penso que não devemos conceber nossa vida eterna com Deus como se estivéssemos flutuando nas nuvens, por assim dizer. Mas teremos corpos novos ressuscitados; corpos que não são tocados pelo pecado ou por enfermidade ou morte. Seremos imortais; nunca morreremos. E viveremos em uma nova terra. Agora, os detalhes nos iludem – o que isso envolverá? Não conhecemos todos os detalhes, mas sabemos que teremos alguma responsabilidade. Reinaremos com Cristo. E presumo que, uma vez que é um universo novo, nós estaremos interagindo com o cosmos que Deus criou. Haverá, então, coisas específicas para nós fazermos. Mas fundamentalmente, o que o Novo Testamento enfatiza, não é o que faremos, por mais interessante que pareça, e estou seguro que será fascinante e interessante. Mas, o que o Novo Testamento enfatiza é que Deus estará conosco. Veremos seu rosto. A comunhão com Ele será o gozo que há de satisfazer nosso ser.
— Dr. Tom Schreiner
O famoso teólogo Louis Berkhof, que viveu dos anos 1873 a 1957, descreveu o estado final da vida eterna na parte 6, capítulo 5 do seu livro Teologia Sistemática. Escutemos o que ele escreveu:
A plenitude desta vida se goza em comunhão com Deus... Verão a Deus em Jesus Cristo, cara a cara, encontrarão plena satisfação nele, se regozijarão nele, e o glorificarão... haverá intercambio e reconhecimento social... o gozo de cada individuo será perfeito e pleno.
De certa forma, pode parece estranho que a Bíblia não fala acerca da natureza da vida eterna. Afinal de contas, a vida eterna é a grande recompensa que o Evangelho oferece àqueles que se arrependem e têm fé salvífica em Cristo. Mas a realidade é que a Escritura tende a falar da vida eterna em termos bastante gerais. Apocalipse 21.3-4 nos diz que Deus morará com seu povo, e que não haverá morte nem tristeza. Nós teremos novos corpos, e seremos completamente livres da presença, corrupção e influência do pecado. Mas, e os detalhes? A verdade é que a Bíblia diz muito pouco acerca deles. Em vez disso, ele principalmente nos encoraja a confiar que Deus é bom, e a não especular muito acerca das maravilhas que Ele tem preparadas para nós. Escutemos o que Paulo escreveu em 2 Coríntios 12.2-4:
Conheço um homem em Cristo que... foi arrebatado ao terceiro céu... foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é permitido falar.
Notemos o que Paulo disse acerca desta experiência. As coisas que escutou foram inefáveis – não poderiam ser suficientemente expressas na linguagem humana. Além disso, ao homem não é permitido expressar o que o terceiro céu contém. É tão maravilhoso que Deus o mantém em segredo por agora.
E isto era só o céu – o estado intermediário antes de nossa ressurreição. Se os segredos do céu não podem ser revelados, quando mais os segredos de nosso estado final? Quem pode imaginar quão maravilhosa será a vida que teremos quando Cristo regressar? A Bíblia nos diz que não haverá mais tristeza, sofrimento, desilusões ou morte. Estas coisas são maravilhosas e verdadeiras, mas a Bíblia simplesmente não nos diz muitos detalhes acerca delas.
Agora que temos considerado o tempo e a qualidade da vida eterna, vamos a nosso tópico final: o lugar onde viveremos para sempre.
LUGAR
A Escritura muitas vezes falar do lugar onde viveremos eternamente como os novos céus e a nova terra. Encontramos esta linguagem em Isaías 65.17 e 66.22, 2 Pedro 3.13, e Apocalipse 21.1. Esta recriação dos céus e da terra leva a história geral da Bíblia à sua realização completa. A história começa em Gênesis 1.1 quando Deus criou os céus e a terra. Mas depois ela foi corrompida por causa da queda da humanidade em pecado, tornando-a imprópria para Deus habitar. O resto da Bíblia nos conta a história de como tanto a humanidade e a criação estão sendo redimidas. E uma vez que Jesus volte, o resultado final será que os céus e a terra serão redimidos e renovados, para que Deus finalmente more sobre a terra com seu povo ressuscitado. Esta é a meta que Jesus tinha em mente em Mateus 6.9-10, quando nos ensinou a orar estas palavras:
Vocês orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.
A meta sempre foi que o reino de Deus fosse completamente manifestado tanto nos céus, onde os anjos e as almas dos santos que partiram vivem, como também na terra, onde nós vivemos. Esta é a razão pela qual Jesus nos ensinou a petição que Deus trouxesse o seu reino sobre a terra, e para que sua vontade seja obedecida tanto na terra como no céu.
Apesar da Escritura não falar muitas vezes desta nova criação, quando o faz deixa claro que o destino final dos seres humanos redimidos não estará nos céus, mas na terra renovada. Em Isaías 65.17-19, aprendemos que o povo de Deus morará na renovada cidade de Jerusalém. E em Apocalipse 21.2, encontramos que esta nova Jerusalém existirá na nova terra. Escutemos o que João escreveu em Apocalipse 21.1-5:
Então vi um novo céu e uma nova terra... Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu... Ouvi uma forte voz que vinha do trono e dizia: Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus... Aquele que estava assentado no trono disse: "Estou fazendo novas todas as coisas! " E acrescentou: "Escreva isto, pois estas palavras são verdadeiras e dignas de confiança.
Aqui vemos que Deus está preparando a Nova Jerusalém no céu. E quando a nova terra estiver pronta, ele trará a Nova Jerusalém à terra como sua morada santa entre seu povo, que também habitará na nova terra. Se o plano de Deus fosse simplesmente levar-nos ao céu pela eternidade, então, não haveria necessidade de uma nova terra. Mas, como lemos aqui, Deus está fazendo tudo novo, incluindo o próprio mundo como nosso eterno lar.
O pai da Igreja Primitiva Agostinho, o famoso bispo de Hipona, que viveu entre 354 a 430 DC, escreveu acerca da nova terra desta forma em sua famosa obra A Cidade de Deus, livro 20, capítulo16:
Para que o mundo, renovado e melhorado, se acomode concordemente aos homens renovados e melhorados na carne.
Virá um dia quando Deus renovará todas as coisas. Vemos isto especialmente nas belas palavras quando Jesus ensinou a nós, seus discípulos, a orar quando ele disse: Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome, venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Esta ideia crucial, central, fundamental e cristã, é que agora vivemos em um tempo de espera para que as realidades celestiais cheguem a ser realidades terrenas – que a forma como as coisas são feitas no céu onde Deus é santificado, onde todas as coisas são corretas, e justas e a glória e a verdade e o amor reinam. Nossa esperança como cristãos, nossa segura esperança, é que essas realidades do céu se convertam em realidades terrenas, e isto é o que a Escritura promete e espera da nova criação, nosso lar eterno.
- Dr. Jonathan Pennington
Se perdermos de vista o fato de que a nova terra será nosso lar final, pode ser fácil para nós, separar nós mesmos dos aspectos físicos da realidade, e pensar que nossa existência corporal na terra é uma dificuldade em vez de uma benção. Mas, quando nos damos conta de que a própria terra será nosso lar permanente, podemos ver o mundo presente como uma bênção e uma antecipação da beleza e bênção que Deus tem preparado para nós no mundo vindouro.
CONCLUSÃO
Nessa lição do Credo Apostólico, concentramo-nos no tópico da salvação. Falamos acerca do perdão dos pecados em termos do problema do pecado, o dom da graça divina, e o papel da responsabilidade humana. Exploramos a doutrina da ressurreição do corpo ao observar a maldição da morte, o Evangelho da vida, e a redenção em Cristo. E consideramos a natureza da vida eterna, incluindo seu tempo, qualidade e lugar.
Nesta lição sobre salvação, vimos que o Credo Apostólico foca em elementos essenciais de nossa confissão cristã comum que a igreja tem mantido através dos milênios. Se mantivermos estas doutrinas comuns em mente quando falamos a cristãos de outras tradições e denominações, nós encontraremos que temos uma sólida base para buscar a unidade com aqueles que afirmam o Credo Apostólico, e para corrigir aquele que não o afirmam. Além disso, enquanto focamos nestas doutrinas essenciais de salvação, nos ajudará a ver a imagem geral do que Deus está fazendo neste mundo, e encontrará mais e mais razões para adorá-lo por seu amor e graça.
